O Demônio da Amazônia

Fragmentos

Fragmentos são pequenos trechos de aventuras e situações que Votu viveu em pontos diferentes da História. Tais passagens servem para delinear e reforçar o conceito e o comportamento do personagem, além de inspirar criações futuras/terceiras. Para saber mais sobre o Votu e seu universo ficcional, leia o FAQ.

Fragmento #1

...Durante a noite, uma pequena lanterna de sinalização era o suficiente para não deixar os dois contrabandistas totalmente no escuro. Em meio ao silêncio, após mais um dia de captura de animais, eles se preparavam para dormir, quando ouviram um estrondoso e assustador barulho. Era Votu, que, de uma imensa árvore, saltou e caiu de joelhos em cima do carro dos malfeitores, amassando quase que integralmente o veículo.

Ele permaneceu ali, na mesma posição, em cima do automóvel, olhando fixo para os dois, como se fosse uma demoníaca estátua. Um dos caçadores começou a urinar nas calças e entrou em desespero....

Fragmento #2

A feição já não era mais a de quem, com arrogância e violência, forçava os nativos a cortarem árvores ilegalmente. Encurralado no escuro casebre de madeira diante daquele olhar bestial, só lhe restava implorar por uma improvável absolvição.

Os dois comparsas, sabendo que praticamente não havia mais esperanças para o amigo diante do temível ataque surpresa, deixaram-no para trás e partiram em velocidade.

- Pelo amor de Deus, que diabos era aquilo? - perguntou, ofegante pelo excesso de peso, um dos fugitivos.

- Não sei, cara. Vem rápido! - respondeu o outro, desesperado e correndo mais à frente.

O ecoante grito raivoso de Votu, tão profundo quanto o mais forte dos trovões, calou aquela parte da floresta, e declarava que o lendário gigante não havia gostado nem um pouco da fuga dos outros marginais. Na intenção de despistá-lo, os homens entraram em um denso matagal que se avolumava conforme a corrida, ficando quase da altura de um milharal crescido.

Na pequena casa, as últimas súplicas do malfazejo foram interrompidas pelo som do seu corpo sendo dilacerado por Votu. O barulho das costelas e de outros ossos quebrando fez entrar em desespero um nativo que, sozinho, ouvia tudo do lado de fora. Sem querer ser espectador daquele assustador abate, o humilde rapaz, então livre, largou o serrote e voltou para sua vila.

Segurando partes do cadáver, o colossal guardião amazônico começou a correr na direção dos outros criminosos. Conforme ele ingressava mata adentro, a vegetação sacudia como uma plantação de cana-de-açúcar sendo ceifada por uma máquina colhedeira. Aquela cena, vista pelos dois fugitivos, causava arrepios, e um deles, na tentativa de sobreviver, deitou-se para se esconder na vegetação...
Fragmento #3

A caravana formada por dezoito homens, alguns armados, parou em uma localização mais central e aberta da selva. A obsessão por capturar a suposta criatura gigante que habita a região tomava conta do grupo. Afinal, o êxito lhes traria fama, pensavam, e vingaria a morte do cunhado de um deles, envolvido com tráfico de animais silvestres. De acordo com histórias de residentes que afirmaram ter visto, semanas atrás, um "imenso vulto fantástico" naquele local, o contrabandista havia sido morto pela tal besta.

— Por favor, me deixem ir! — disse um agricultor nativo, puxando um dos líderes do grupo pela comprida manga do casaco, e rezando para aquela maldita expedição ir embora das redondezas da sua residência, mesmo estando a moradia bem distante dali. Ele foi obrigado a servir de guia para a trupe. — Aquilo que vocês buscam não existe. É só... é só... uma lenda! Uma lenda sobre a natureza! — falou, gesticulando com as mãos e exibindo um tímido sorriso amarelo. — Não montem seus equipamentos aqui. Isso pode afetar nosso ecossistema. — inventou, pois, no fundo, não desejava estar ali, no meio daquele bando. Muito menos queria confirmar as histórias que já ouvira.

— Cala a boca! Para de falar asneira! — respondeu o cabeça dos caçadores, empurrando com uma das mãos o frágil homem. — Escute bem. Não sairemos daqui sem capturar essa besta, gigante, pé-grande ou o que for. E se você atrapalhar a gente, vai se arrepender. — completou, batendo de leve repetidas vezes na coxa direita a fim de mostrar seu revólver, guardado em um coldre amarrado na perna.

— Cuidado, senhor. — alertou, trêmulo e com os olhos cheios d'água, o homem caído ao chão. — Vocês vão atrair o Espírito da Floresta...
Fragmento #4

Os homens, assustados com o que viram, decidiram andar em direção às margens do rio Negro, que, acreditavam eles, não estava muito longe dali. O grito de dor do comparsa que ficara para trás fez com que apressassem os passos, enquanto recarregavam suas armas. Passados alguns instantes, eles chegaram perto de um riacho, em um trecho mais aberto da selva. Pedregulhos, inclusive no outro lado do córrego, formavam um beco sem saída. Ou voltariam, ou mergulhariam nas águas daquele igarapé.

O marulhar do riacho os convidava a entrar, mas eles resistiam por não saberem o destino do rio e desconhecerem que animais viveriam nas funduras. Ali, permaneceram discutindo por cerca de três minutos, quando começaram a ouvir um falatório sem sentido, sussurros intercalados com gritos de guerra, mas nada compreensível aos ouvidos dos prófugos. Junto com aqueles ruídos tenebrosos, que ora lembravam uivos de lobos-guarás, ora lembravam o assobio dos ventos, começaram a surgir, de dentro da mata e de trás de trincheiras naturais feitas de rochas, figuras indígenas esbranquiçadas. Eram fantasmas do antigo e destemido povo Manaó, estrategista na arte bélica. Seus guerreiros eram os mais valentes daquele entorno e tinham flechas certeiras. Sim, aquele trecho da floresta estava amaldiçoado.

Os vultos flutuantes, cujas cabeças deterioradas trajavam cocares e exibiam parcialmente as caveiras, formaram um círculo que, aos poucos, começou a se fechar na direção dos malfeitores. Nada amigáveis, os onze fantasmas, quase o triplo do número de arruaceiros — que então estavam em quatro — , erguiam suas flechas, tacapes e lanças. Algumas das aparições, ao mesmo tempo em que revelavam dentes selvagens e expressões raivosas, ameaçavam retesar os arcos em posição de ataque. No meio daquela horripilante ciranda fantasmagórica, os barbados, quem diria, começaram a tremer de medo...
Depoimento #1
"Ele é grande. As pessoas que dizem. Dá arrepio só de pensar quando o pessoal conta. É tipo o tamanho de três homens. Assim. Três homens um em cima do outro. Vem abrindo a mata quando anda. Falam que parece um bicho. E some com os homens ruins daqui. Pega os homens e vai embora." - Natalino de Oliveira, 48 anos, Sena Madureira/AC.
Depoimento #2
"Esse Votu é assim um espírito. É tipo um vulto, entendeu? Acho até que o nome vem daí. Um vulto que passa e leva os homens ruins aqui da mata. Ele passa e quebra. Quebra mesmo o pescoço dos homens." - Francisco Aguiar, 63 anos, Seringal Icuriã/AC.
Depoimento #3
"Eu nunca vi, mas meu cunhado saiu uma vez com um amigo e viu. Tavam andando na mata. Já faz tempo isso. O pessoal lá cortando árvore, assim, pra vender as toras, sabe? Os dois viram quando apareceu um bichão grandão de dentro da mata. Não sabiam o que era, tava tudo escuro. Foi direto nos homens. A mão era assim maior que nossa cabeça. Pegava os homens pela cabeça, que nem papaia. Meu cunhado e o amigo dele arredaram o pé de lá. Disse que só se ouvia os gritos. Os marmanjos tudo chorando, berrando. No dia seguinte o pessoal aqui perto de casa falava isso aí. Esse negócio de Votu. Sobrou ninguém lá." - Jurandir Pereira Silva, 54 anos, Japurá/AM.
Depoimento #4
"Minha avó que contava umas histórias sobre ele. Contava pra minha mãe. E minha mãe depois contou pra mim. Ela nem deixava minha mãe sair pra brincar quando vinha gente de fora, uns homens que chegavam pro garimpo, ou que vinham de noite pra caçar. Minha avó ficava ciscada, porque era de noite que ele aparecia. O pessoal mesmo daqui via de longe as árvores balançando, sacudindo, aquele monte de folhas voando. Aí os mais velhos diziam que era ele de novo castigando os homens lá dentro da mata. Vinha e castigava. Eu sempre tive medo." - Juciara Vilma da Costa, 27 anos, Boa Vista/RR.
Depoimento #5
"O Votu é uma criatura grande e encantada que protege a mata. Isso foi o que eu aprendi, foi assim que me contaram. Uns dizem que é um espírito que vive no meio do mato, outros dizem que é um homem grandão. Eu mesmo nem sei, mas é grande, assim, alto. Ele protege dos que vem de fora pra castigar a mata, castigar as árvores, judiar dos bichos. Ele castiga quem castiga a mata, tá entendendo? Já vi dizerem até que ele leva os homens pro fundo do rio. Ele não anda só na terra não. Ele anda na árvore, na mata, ele sai do rio, sai do igarapé, puxa os homens pro fundo. Ninguém nem vê." - Sebastião Araújo, 39 anos, Eirunepé/AM.
Depoimento #6
"Isso que vou contar aconteceu quando eu era menino ainda, aqui mesmo no Caiari. Eu tava brincando com outras crianças na pracinha, já era noite já, e tava quase dando a hora de ir pra casa. No outro lado da pracinha, ficavam uns homens botando uns animais numa gaiola. Era quase toda semana isso. Botavam num saco, botavam na gaiola. A gente não gostava de ver os bichos presos, parecia que tavam maltratando, mas a gente também não podia fazer nada, né? Aí nessa noite, passou assim um gigante cruzando a praça com passos largos. Foi assim bem rápido, na direção dos homens, catou os quatro e sumiu dali. A gente ficou arrepiado e começou aquela gritaria, aquela choradeira, aquele corre-corre. Cheguei em casa pálido que só. Meus pais não acreditaram, diziam que eu tava inventando coisa. Um menino contou pros pais dele que era um animal grande, um gato do mato grandão, mas eu vi o que era, e não era animal nenhum. Era um gigantão mesmo. Tinha mão, cabelo. Passou assim que nem vento e levou os cabras tudo daqui." - Jair Mendonça, 31 anos, Porto Velho/RO.
Depoimento #7
"Um primo meu disse que viu esse tal de Votu. Tem uns quinze anos já que ele viu. Tinha uns homens cortando e empilhando madeira. O bichão chegou andando pelo meio das toras, jogando as toras pra tudo que é lado. Pegou os homens um por um. Meu primo tava longe, mas falou que o Votu pegou uma empilhadeira com os dois braços e quebrou toda. Foi assim uma coisa inacreditável. Quebrou como se fosse de brinquedo. Eu não condeno. Quem mexe com a Natureza, um dia paga. Esse povo que vem aqui fazer essas coisas não gosta da Terra não, rapaz." - Acir Barreto, 44 anos, Buritis/RO.